Acabei voltando o caminho sozinho, eles em sua aventura atrás da pobre marmota deixaram-me para trás. E porque haviam de se importar com alguém que não conheciam?
Nem mesmo eu poderia dizer que me conhecia.
Chegando próximo ao Orfanato, que aos meus olhos parecia mais um castelo e deveria ter sido algum dia, e como era enorme aos meus olhos, todo feito de pedras... ele deveria ser antiguissimo...
Vi próximo a fonte Gustavo e Ébert, já com a pobre marmota que parecia-me pouco ou nada assustada dentro daquela gaiola improvisda de gravetos, a volta deles se aglomeravam algumas dezenas de outras crianças. Pareciam ter chegado a pouco, pois já vinham as Irmãs a questionar.
- Que bagunça é esta?
Em uníssono todos responderam.
- É o almoço!
Lá do meio os dois 'caçadores' brandaram contrariamente.
- De modo algum!!
Enquanto me afastava indo em direção ao interior do Orfanato, pude ouvir alguns gaguejos de Ébert tentando explicar o que acontecera, omitindo a parte da conjuração mal sucedida, por assim dizer.
Já dentro do Orfanato eu deslizava a mão pela parede gelada daquele extenso e mal iluminado corredor . A sensação dentro de mim era ambigua, me sentia vivo por ter presenciado uma pequena aventura... mas tambem me sentia como aquele corredor me parecia...
Porque sempre fico só? E outra voz dentro de minha mente dizia: Deixa disso, só se empolgaram com a marmota...
Certamente a sensação era ampliada pelo frio e vazio daquele corredor.
Toda aquele gélida reflexão foi interrompida pelo estouro de ao menos uma centena de crianças a passar por mim correndo na direção do refeitório e o sino se pôs a ressoar, o almoço já estava pronto.
Alguém me agarrou pelo braço e dispara a falar, antes mesmo que eu pudesse virar-me em sua direção ela havia falado algumas centenas de palavras que de tão rápidas me pareciam uma língua bárbara, até que ela disesse algo compreensível.
- Oi, sou a Thaís... Vamos logo, o almoço vai ser animado. Queremos saber como foi com...
Eu grosseiramente a interrompi.
- Me solte, não vou almoçar com vocês!
Seu rosto corou e certamente o meu também. Aquilo não parecia uma reação minha, mais fui irredutível.
Eu segui andando a procurar meu dormitório, enquanto ela imóvel no meio do corredor permaneceu em choque por minha grosseria.
" Eu não quero amigos. Para que eu iria querer algo tão perecivel..." resmunguei
O zumbido de todas aquelas vozes começava a ficar menor, eu caminhava em direção a minha cama que por sorte era a única que não tinha dois andares e evitaria ter de ficar conversando com alguém.
Sentado na beirada da cama, aguardei um pouco para ter certeza que estava só, então desloquei a pedra na parede e fiquei ali olhando aquela adaga que tinha parte dela para fora do pano que a envolvia.
O brilho hipnótico do metal, ela parecia estar vibrando... viva... Talvez fossem minhas emoções ainda, por serem um tanto nebulosas, me faziam ter esta impressão.
Contemplar aquele brilho intensificava a sensação de ser rejeitado... de estar sozinho... Quando dei por mim a adaga já estava na minha mão, eu a segurava com muita força e uma raiva brotava em mim, eu desejava crava-la em alguém... é isso... via meu pai ali na minha frente, vi numerosas pessoas que não conhecia sorrindo... todo o quarto já havia sumido, eu esta imerso em uma visão.
Parecia uma enorme festa ao ar livre e todos eram tão felizes... com seus sorrisos, aquele brilho nos olhos de todos. Eu andava naquela multidão de desconhecidos na direção do meu pai. E cada vez mais minha raiva aumentava... a cada rosto feliz crescia mais e mais minha raiva, quanto mais raiva e mais perto eu chegava dele eu ia ficando menor, a adaga ja parecia uma espada em minha diminuta mão.
A raiva atingiu seu ápice e segurei firme a espada e rangi os dentes de tão forte que os pressionei, de repente ouvi meu pai dizer gargalhando monstruosamente:
- Faça! Você é meu filho! Crave em mim esta lâmina! Crave naquele dois idiotas que te abandonaram hoje no campo!
Meu pensamento deu um salto ao ouvir isto, como se houvesse despertado de um pesadelo muito real, arremessei para longe aquela adaga.
Minha respiração era ofegante, eu já enxergava novamente o dormitório mas parecia meio nublada minha visão, fui tomado pela ira e agora o que me restava era o medo.
O que houve aqui??? Eu não sou como ele!
Como se buscasse reconforto, e certamente era isso, comecei a revirar onde havia guardado as coisas dentro da parede.
Onde está o medalhão da minha mãe?
Onde eu...
Enquanto revirava o pano dentro de meu 'cofre de pedra', me dei conta de que estava com a ruiva.
Temeroso fui andando na direção que atirei a adaga, fiquei ali diante dela, exitante, tomei-a pela ponta usando o pano para retornar com ela para o esconderijo. Assim que fechei respirei profundamente aliviado. Passos vinham pelo corredor na direção do dormitório.
Élis vinha na minha direção para voltar ao campo com o almoço do Arian, assim que terminasse de almoçar. Eu não pretendia ir acompanhado de modo algum. Tão pouco gostaria de ir ao refeitório comer com aqueles xeretas!
Consegui convencer Élis que eu era capaz de ir sozinho, e levar comigo meu almoço.
Nem me dei conta naquele momento que a decisão de ir ao encontro de Arian seria muito importante....