terça-feira, 9 de dezembro de 2008

4 -


Eu desabei diante de tais lembranças.
Corri ao local onde era a biblioteca, procurando algo... Notei um brilho no chão entre as frestas do assoalho, quando abaixei para pegar, o assoalho da casa desabou. Eu cai dentro do porão; Ao meu lado o mesmo brilho que havia visto.
Puxei a correntinha prateada. Junto a ela um medalhão dourado com um triangulo em relevo, cravado no centro do medalhão o punhal que meu pai segurava contra o peito de minha mãe.
Fiquei segurando os objetos nas mãos. Tentei abrir o medalhão, mas o buraco feito pela lamina parecia ter derretido as bordas do local que perfurou, selando o medalhão.
A lamina prateada, incrustado de manchas de sangue parcialmente carbonizadas.
O cabo dourado... Duas serpentes que se entrelaçavam da base até o começo da lamina..

Muitas perguntas começaram a brotar em minha mente, e o sentimento de ódio intenso sobre o que meu pai fizera.
Peguei um pedaço de pano chamuscado que estava no chão, e coloquei ali o medalhão e o punhal.
Escalei as paredes consumidas do porão, quando terminei de subir avistei ao longe dois homens a cavalo que olhavam para mim. Suas roupas eram estranhas... Senti como se olhassem dentro de mim, estremice por dentro.
Notei duas espadas enormes junto a sela dos cavalos. Cavalos estes, que eram negros como a noite. Desviei o olhar para um barulho, ali estavam duas mulheres do Orfanato numa carroça; Ao voltar meu olhar para onde estavam os homens... Nada, sumiram.

--- Adam! Venha menino, depressa... Saia dessa chuva, não ha mais o que fazer aqui.

O Som do nome proferido por quela mulher cortou meus pensamentos. Meu nome!!!

Entrei na carroça atordoado. Meu nome... Os homens estranhos... Como meu pai conseguiu me arremessar do outro lado da casa sem tocar em mim...
Minha cabeça girava, eu buscava me encontrar dentro do turbilhão de coisas.
--- Vocês viram os dois homens logo ali?

--- Não Adam. Não havia ninguém ali...

Talvez o intenso temporal não tenha permitido a elas notarem. Eu também não tinha certeza do que vi... Certeza era o que menos tinha neste momento da vida.

--- Como sabe meu nome? Onde estão os corpos de meus pais?...

--- Você esteve no Orfanato com seus pais uma vez, por isto sei seu nome. Seus pais foram levados para serem enterrados onde nasceram.

--- Levados por quem?

--- Não sabemos. Seus pais eram muito reservados e apesar de morarem não muito longe do Orfanato, pouco sabíamos sobre vocês... Seus pais ajudavam financeiramente o Orfanato.

--- Quem me tirou da casa?

--- Ficamos sabendo do incêndio por um viajante que foi até o Orfanto pedir alimento. A Madre Superiora e eu fomos ao local, quando chegamos, você estava encostado em uma árvore no caminho de acesso a mansão... Você estava desacordado.

Fiquei a pensar o que teria me tirado lá de dentro... Talvez eu mesmo no impeto de viver tenha me arrastado... Não sei. Mais uma coisa pra pensar.

--- Qual seu nome Freira?

--- Élis...

--- Élis.
Obrigado.


Adam se calou todo o caminho de volta ao Orfanato...



Chegando ao Orfanato fui levado ao dormitório e apresentado a minha cama. Retirei do casaco meus achados e fiquei a pensar onde os guardaria. Notei uma pedra meio solta atrás da minha cama, na parede, forcei um pouco e ela se soltou... Coloquei ali o medalhão e o punhal embrulhados no mesmo pano chamuscado. Antes de fechar notei algo escrito no pano e resolvi olhar...

"Somos a personificação do passado no presente, a possibilidade de um futuro. O que não lhe arrancar do peito o fôlego de vida o tornará mais forte."

...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

3 -





Não tinha real noção de minhas feridas. Dormi por quatro dias.

Acordei. Levantei-me e fui à janela. O tempo estava fechado, núvens avermelhadas e o vento começava a soprar anunciando uma tempestade.
A enfermeira veio me ver e contou o quanto eu havia hibernado. Me trouxe roupas "novas" e eu a acompanhei pelo corredor de pedra da ala da enfermaria, através do caminho notei duas enormes portas: uma fechada e a outra aberta; Pareciam entradas de uma biblioteca...
Veio como um relâmpago a lembraça de estar lendo um livro... Símbolos... Outras línguas... Balancei a cabeça e prossegui.

Chegamos ao refeitório... Já era hora do almoço. Ali umas trezentas crianças, e alguns bebês eram cuidados pelas Freiras.
Me senti uma aberração. Com a cabeça enfaixada e ataduras nas pernas completavam minha roupagem, e claro, logo assim que adentrei o refeitório virei alvo dos olhares e assuntos de conversas sorrateiras. Constrangimento foi pouco, afinal, eu não lembrava do meu passado e agora virei a atração do circo.

Com a fome que apertava fui obrigado a comer ali... Não tinha escolha, ao menos encontrei uma mesa distante do público que me assitia...

Devorei minha sopa e o pedaço de pão.


Depois do almoço, todos saiam para a área lateral... Uma enorme varanda de pedras... Parecia algo muito mais antigo que a outra área dali... O lago circundava todo o Orfanato; Caminhei para a parte de trás, havia lá um jardim ramado com muitas árvores, pequenos barquinhos ancorados ali, provavelmente para ir até a outra margem onde haviam outros complexos - possivelemnte do Orfanato também.

Nem tudo ali era estranho... A ponte da entrada parecia familiar.

Notei que quatro pessoas estavam a me olhar... Despistei e encontrei uma bicicleta. Perfeito... Agora posso ir conferir aqueles sonhos que tive.

A tempestade chegou e com ela saí voando por entre as pedras... Quase cai da ponte.
Minhas pernas ardiam, as ataduras já manchadas pelo sangue... Não iria desistir, precisava entender tudo aquilo.
A casa não chegava mais...
A chuva pareciam que iria afogar a todos. A respiração já não trazia ar para os pulmões e sim água.

Após quase 2 horas pedalando avistei ao longe ruínas, não me contive e saltei da bicicleta ainda em movimento. Cheguei diante das ruínas de uma grande casa... Cai de joelhos... As lágrimas se misturavam a chuva; Meu sangue descia pelo rosto... Meu ferimento acordara.
Minhas mãos sobre as cinzas.
O céu parecia se compadecer com minha dor.
Uma forte dor na cabeça e as lembranças daquele noite brotaram vorazmente.

Meu pai estava no porão e minha mãe lendo na biblioteca... Eu estava escrevendo algo... Um conto sobre seres da natureza...

Quando ouvi um barulho de janelas estilhaçando. Desci aos pulos as escadas e me deparei com fogo pela casa... Muita fumaça... Ouvi minha mãe gritar... Entrei pela ante-sala da biblioteca... Sangue pelas paredes.
Meu pai ao chão com minha mãe, segunrando um punhal. O punhal cravado em seu peito... O rosto dele era puro ódio.

Ele olhou pra mim com um olhar obscuro e fez um gesto com a mão, eu fui atirado do outro lado da casa. Pude ver o teto caindo sobre eles.

...

2 -


...

Acordei em meio a muita fumaça. Senti o sangue que escorria sobre meu rosto e as queimaduras em minha perna. Apaguei de dor. Acordei em uma sala branca, minhas feridas tratadas e com roupas limpas. Era uma enfermeira. Eu acordara em um Orfanato.


Estava atordoado, tentando lembrar de algo... Achar um fio sequer de lembrança, e nada, só algumas imagens confusas... 'Lembranças' desconexas.

As dores me venceram e voltei a dormir.

Sonhos terriveis!!! Vozes, muitas vozes... Gritos de uma mulher... Sangue pela casa... O rosto raivoso de um homem... Seria ele meu pai?! O que é isto em suas mãos?!...
Não!!! Mãe!!! Ela não!!!


Acordei aos gritos e rodeado de crianças à volta de minha cama, que logo foram dispersados pela enfermeira...

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Do que você se lembra menino?

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De pouca coisa... O que houve?

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Houve um incêndio onde você morava... Infelizmente só você sobreviveu... Seus... Seus pais estão mortos.

Ter contato com aquela realidade foi como ser atingidno por um soco no estômago, e vomitei de dor... Não dor física. Minha alma se partiu e não conseguia sequer lembrar quem eram meus pais.

Pouco me pode informar sobre o que acontecera comigo, ou mesmo quem eu era.

Passei o dia a remoer estranhos sentimentos... Ódio... Culpa... Que eu não sabia de onde vinha, estava atordoado... Não lembrava de nada sobre minha vida.
A noite chegou e eu me recordei onde morava, não era longe... Mas ir a pé demoraria horas... Tentei me levantar e cai no chão, tinha perdido muito sangue com os ferimentos. Vou esperar ao menos a madrugada chegar.

.....


As palavras fluiam com tanta intensidade, carregadas de sentimentos. Khamus não apenas contou uma história, tornou palavras palpáveis, como se o véu do tempo se permitisse descortinar, a visão dos fatos do passado ali, na sua frente. Tão ávido quanto antes de tudo aquilo acontecer, o poder de persuasão não o havia abandonado.

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terça-feira, 2 de dezembro de 2008

1- O Caminho Através da Cidade Chamada Destino...



Nada acontece por acaso. Tudo no universo, visível ou não, esta interligado.

Sob esta sorte também estão os humanos.

Por mais que possam viver muito tempo, o fato da morte é inegavél. Para outros seres, os humanos tem uma perspectiva inigualável da vida, tudo é único e precioso, pois é passageiro... Finito.

E mesmo sem compreender muitas coisas, lutam, acordam dia após dia, mesmo sabendo que um dia não acordaram mais...

Tudo cumpre um propósito, mesmo que a mente não possa perceber e compreender todas engrenagens desta complexa arquitetura, e todas as forças que as movem. Assim é a existencia humana. A síntese do Uni-Verso. Um reflexo de outras maneiras de ser manifesto, reunidas dentro de um receptáculo de cristal.

Um ponto único no Universo resultado de um passado tão distante, por vezes desconhecido, que os guiará a certas decisões.

Possuem dentro de sí o Universo, e alguns descobriram que podem viajar através deste... Movidos por uma força desconhecida que os guia rumo ao Oculto, ao Poder... O despertar do verdadeiro 'Eu'.

O Destino é uma grande cidade e Khamus nos guiará por entre seus caminhos.

A morte não é o fim, é só mais um teste...

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

O Caminho



Naquele dia o tempo parecia não seguir seu curso implacável como de costume. Por que estava tudo tão alheio ao tempo? Será que o tempo... Bom, não deve ser nada.

Coloquei ao meu lado um calhamaço de livros. Dentre eles meus Grimórios magickos - diário magicko - que são mais que livros para mim. Testemunhas fiéis da minha vida magicka. Foi ali depositada minha essência; Décadas de dedicação; E momentos da minha vida "normal" também foram ali depositadas, afinal, não há como separar os dois aspectos da minha vida... A magia faz parte de mim e eu dela...

Uma pessoa adentrou minha casa. Quando percebi, este já estava prestes a abrir a porta do meu quarto... Junto à ele uma leve brisa adentrou contrastando com o mofado ar do meu quarto...
Dado os últimos acontecimentos não era anormal eu não tê-lo percebido. Meu corpo estava cansado e debilitado, pela "idade adquirida" com os últimos fatos.
*Teria chegado meu fim? Por isto eu me senti impelido a escrever uma última coisa que faltára no Grimório... Seria meu último Grimório???


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Ah como eram lindos meus amigos, os únicos...
Ritualísticamente preparados... Detalhadamente adornados...
Foram os mais fiéis até aquele momento à mim. Ouviram sem nada dizer... Mas era hora destes que tanto me ouviram, falar. Este é meu desejo.

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Sentou-se ao lado da cama, e sem pensar Khamus lhe entregou o calhamaço e o último diário que acabara de escrever. O Jovem fez questão de ler as últimas linhas escritas.


" Estas ultimas linhas que escrevo estão impreguinadas pelo suor, sangue, tinta e muita tristeza... Meu último registro em vida terrena. Entrego agora à você fiel testemunha, na esperança que minha essência aqui depositada não se perca, mas ecoe pelo infinito. Afinal nós não temos medo da morte, temos medo do esquecimento.
Infelizmente não pude fazer como de costume dentro da Ordem, e entregar meus Grimórios para... "

Lux
et Nox
Khamus Argór'


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O jovem direciona o olhar a Khamus. O ancião de olhos joviais...



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Certamente existem coisas que não estão aqui nos diários, certo?


A voz imponente e serena de Khamus ecoa no ar áspero daquele lugar, a chegada de um vistante... A muito as pessoas ja não se aproximavam daquele local...

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Terei tempo de contar como tudo realmente começou ?

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Não notou que o tempo jaz diante deste dia?!

Algo como um sorriso surge na face fria de Khamus...