segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

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Adam encerrou seu tesouro, sobre ele colocando uma pedra. Um sentimento fúnebre, como se houvesse ali enterrado pai e mãe. Realmente não foi tão diferente. Contudo, as palavras que acabara de ler não poderiam ser tão facilmente encerradas, ecoariam em seu ser até que fosse a hora de compreendê-las.
Repousou sua cabeça,a alma desceu para dentro de si e foi ao reino das sombras,o vazio. Adam já não tinha mais sonhos ou pesadelos... Seu sono era um mergulho no frio do abismo.




Na manhã seguinte acordei aos pulos, o sino de tão potente parecia ressoar dentro de minha cabeça. Este era o sinal que todos deveriam se levantar...
Arrumei minha cama, ajeitei meu curativo na cabeça para que o cabelo ficasse mais livre... Dentro de alguns dias já não precisaria mais usar curativos, já estavam quase todos cicatrizados.
Todos dirigiam-se ao refeitório, mas o dia parecia não ter acordado... Um nevoeiro cobria todo o vale e adentrava até mesmo dentro do Orfanato.
Ao chegar no refeitório olhava para as Freiras que distribuíam o café da manhã, e para alguma área que não houvesse ninguém sentado. Olhava ao redor e já não haviam tantas pessoas a me olhar como da primeira vez, ainda sim sentia-me deslocado.
Apanhei meu pão, copo de leite e uma maçã... Esgueirei-me até uma mesa no canto da ala do refeitório... Era escuro, acreditei que ninguém me observaria ali.
Meu cabelo cobria toda minha face, em meio as sombras o cabelo completava meu mimetismo, estava curvado sobre a pequena mesa devorando minha maçã. Distraído com pensamentos nem notei a aproximação; Quando percebi já estavam em minha frente. Quase caí da cadeira... Quatro pessoas à minha frente. Soltei a maçã no susto, acredito que o coração deve ter parado por alguns segundos. Levei as mãos para afastar o cabelo do rosto e quando o fiz estava olho-a-olho da jovem ruiva. Ela aproximou mais seu rosto do meu e disse :

- Ei garoto você esta bem? Por que esta tão pálido???


Acho que todo o sangue do meu corpo se recolheu e em meio a palavras entre cortadas eu estranhamente não conseguia desviar meu olhar daqueles olhos... que cor seriam... não me lembro de nada tão belo...

S-S-Sim... estou... o que você... vocês...


- Qual seu nome garoto ?


Por de trás deles percebi Éllis chegar, apontou para mim e fez um gesto para que eu a acompanhasse. Eu não hesitei. Saltei da situação literalmente. Estava tão constrangido que fui rude, e sai aos trancos... foi tudo muito inesperado. Olhei para trás e disse meu nome a bela ruiva que pareceu sorrir diante da situação.

- O que houve Éllis ?

- O Sacerdote superior quer vê-lo. Lhe explicar certas coisas.


- Isto é bom?

- Creio que sim Adam
.


Em meio a névoa densa e fria meus pensamentos trouxeram uma lembrança do "quarteto", eu os havia visto no dia em que peguei a bicicleta e fui a minha casa... Sim, eram eles que me olhavam... Dois garotos e duas garotas, talvez a mesma idade que eu.
Chegando a parte de trás do Orfanato, onde eu havia visto os barquinhos ancorados, Éllis me levou até a outra margem e explicou que não poderia acompanhar-me no local pois ali era destinado aos Homens que decidiram dedicar suas vidas em busca da espiritualidade e servir ao Deus Mitrah". Ela esperaria ali até que eu voltasse.
Como me instrui eu adentrei. Um castelo esculpido nas rochas... Algo que sem dúvida deveria ser muito antigo. Lá dentro pude perceber que era muito maior do que poderia supor olhando de fora. Uma construção antiga que se estendia montanha adentro. Várias salas ao longo do caminho, - Éllis orientou-me a seguir as as pedras amarelas até uma porta de bronze - contei doze portas, elas se destacavam do restante por possuírem cada uma um símbolo no centro. Enormes velas ao longo do caminho iluminavam o corredor sombrio, afinal o Sol não daria as caras até que fosse bem mais tarde, e não creio que isto faria diferença, era distante do brilho do sol.
Estava diante da porta de bronze. Havia símbolos variados em relevo na porta, os doze que havia visto circundando algo semelhante a um Sol de oito raios... Quando ouvi algo vindo de trás da porta:

"Sim Mestre... Tua vontade será cumprida... "

Quando agucei as orelhas, a porta se abriu abruptamente. Diante de mim um senhor alto e magro, cabelos compridos e grisalhos... olhos fundos... a pouca luz fez parecer que nem possuía olhos, quase sai correndo. Estendeu-me sua mão cadavérica.

"É um prazer vê-lo meu jovem..."