quarta-feira, 15 de junho de 2011

Acabei voltando o caminho sozinho, eles em sua aventura atrás da pobre marmota deixaram-me para trás. E porque haviam de se importar com alguém que não conheciam?
Nem mesmo eu poderia dizer que me conhecia.
Chegando próximo ao Orfanato, que aos meus olhos parecia mais um castelo e deveria ter sido algum dia, e como era enorme aos meus olhos,  todo feito de pedras...  ele deveria ser antiguissimo...
Vi próximo a fonte Gustavo e Ébert, já com a pobre marmota que parecia-me pouco ou nada assustada dentro daquela gaiola improvisda de gravetos,  a volta deles se aglomeravam algumas dezenas de outras crianças. Pareciam ter chegado a pouco, pois já vinham as Irmãs a questionar.


- Que bagunça é esta?


Em uníssono todos responderam.


- É o almoço!


Lá do meio os dois 'caçadores' brandaram contrariamente.


- De modo algum!!


Enquanto me afastava indo em direção ao interior do Orfanato, pude ouvir alguns gaguejos de Ébert tentando explicar o que acontecera, omitindo a parte da conjuração mal sucedida, por assim dizer.
Já dentro do Orfanato eu deslizava a mão pela parede gelada daquele extenso e mal iluminado corredor . A sensação dentro de mim era ambigua, me sentia vivo por ter presenciado uma pequena aventura... mas tambem me sentia como aquele corredor me parecia...
Porque sempre fico só? E outra voz dentro de minha mente dizia: Deixa disso, só se empolgaram com a marmota...
Certamente a sensação era ampliada pelo frio e vazio daquele corredor.
Toda aquele gélida reflexão foi interrompida pelo estouro de ao menos uma centena de crianças a passar por mim correndo na direção do refeitório e o sino se pôs a ressoar, o almoço já estava pronto.
Alguém me agarrou pelo braço e dispara a falar, antes mesmo que eu pudesse virar-me em sua direção ela havia falado algumas centenas de palavras que de tão rápidas me pareciam uma língua bárbara, até que ela disesse algo compreensível.


- Oi, sou a Thaís... Vamos logo, o almoço vai ser animado. Queremos saber como foi com...


Eu grosseiramente a interrompi.


- Me solte, não vou almoçar com vocês!


Seu rosto corou e certamente o meu também. Aquilo não parecia uma reação minha, mais fui irredutível.
Eu segui andando a procurar meu dormitório, enquanto ela imóvel no meio do corredor permaneceu em choque por minha grosseria.


" Eu não quero amigos. Para que eu iria querer algo tão perecivel..." resmunguei


O zumbido de todas aquelas vozes começava a ficar menor, eu caminhava em direção a minha cama que por sorte era a única que não tinha dois andares e evitaria ter de ficar conversando com alguém.
Sentado na beirada da cama, aguardei um pouco para ter certeza que estava só, então desloquei a pedra na parede e fiquei ali olhando aquela adaga que tinha parte dela para fora do pano que a envolvia.
O brilho hipnótico do metal, ela parecia estar vibrando... viva... Talvez fossem minhas emoções ainda, por serem um tanto nebulosas, me faziam ter esta impressão.
Contemplar aquele brilho intensificava a sensação de ser rejeitado... de estar sozinho... Quando dei por mim a adaga já estava na minha mão, eu a segurava com muita força e uma raiva brotava em mim, eu desejava crava-la em alguém... é isso... via meu pai ali na minha frente, vi numerosas pessoas que não conhecia sorrindo... todo o quarto já havia sumido, eu esta imerso em uma visão.
Parecia  uma enorme festa ao ar livre e todos eram tão felizes... com seus sorrisos, aquele brilho nos olhos de todos. Eu andava naquela multidão de desconhecidos na direção do meu pai. E cada vez mais minha raiva aumentava... a cada rosto feliz crescia mais e mais minha raiva, quanto mais raiva e mais perto eu chegava dele eu ia ficando menor, a adaga ja parecia uma espada em minha diminuta mão.
A raiva atingiu seu ápice e segurei firme a espada e rangi os dentes de tão forte que os pressionei, de repente ouvi meu pai dizer gargalhando monstruosamente:


- Faça! Você é meu filho! Crave em mim esta lâmina! Crave naquele dois idiotas que te abandonaram hoje no campo! 


Meu pensamento deu um salto ao ouvir isto, como se houvesse despertado de um pesadelo muito real,  arremessei para longe aquela adaga.
Minha respiração era ofegante, eu já enxergava novamente o dormitório mas parecia meio nublada minha visão, fui tomado pela ira e agora o que me restava era o medo.
O que houve aqui??? Eu não sou como ele!
Como se buscasse reconforto, e certamente era isso, comecei a revirar onde havia guardado as coisas dentro da parede.
Onde está o medalhão da minha mãe?
Onde eu...
Enquanto revirava o pano dentro de meu 'cofre de pedra', me dei conta de que estava com a ruiva.
Temeroso fui andando na direção que atirei a adaga, fiquei ali diante dela, exitante, tomei-a pela ponta usando o pano para retornar com ela para o esconderijo. Assim que fechei  respirei profundamente aliviado. Passos vinham pelo corredor na direção do dormitório.
Élis vinha na minha direção para voltar ao campo com o almoço do Arian, assim que terminasse de almoçar. Eu não pretendia ir acompanhado de modo algum. Tão pouco gostaria de ir ao refeitório comer com aqueles xeretas!
Consegui convencer Élis que eu era capaz de ir sozinho, e levar comigo meu almoço.
Nem me dei conta naquele momento que a decisão de ir ao encontro de Arian  seria muito importante....

segunda-feira, 30 de maio de 2011





Rapidamente quase todo o Orfanato estava ali as portas do celeiro, e eu novamente em uma 'cena de crime'...

- Acalmem-se crianças... Vocês não tem mais o que fazer ?!
Voltem imediatamente pra o Refeitório.
Irmãs venham aqui me ajudar a acordar a Irmã Rebecca!
Adam o que você aprontou aqui?! - Dizia Élis a olhar pra mim...

- E... eu... Ela... Se assustou eu acho...

Sobre o ombro de Élis, às portas do celeiro,eu via alguns olhares a espreitar a situação... Não demorou para um deles perder o equilibrio e derrubar os outros... Eram eles!... A ruiva e seus amigos parados ali a me observar...

- Já pra dentro! - vociferou Irmã Tânia.

Aos tropeços puseram-se a correr.

- Levem-na pra dentro, que eu me encarrego do Adam. - disse Élis.

Eu engolia seco. 'Estou muito encrencado' pensei.
Meus olhos abaixaram-se e me senti corar... 'O que vou dizer?!'...
Eu sentia o olhar de Élis sobre mim...

- Você está bem Adam? Me conte o que aconteceu...

Eu estranhei sua calma... Ela examinava meus novos hematomas...

- Criança como você consegue se machucar tanto?! Veja só estes cortes...

- Eu... me perdi... - 'eu não posso contar a história toda', pensei. - Sai a noite e acabei me perdendo... Estava chovendo bastante e eu acabei caindo... Por isso os machucados...
Quando voltei as portas estavam trancadas... Resolvi então dormir aqui. Acordei com o 'grito' da Irmã... Foi sem querer, eu juro... Não sei o que aconteceu ao certo... Não sei o que ela viu que a assustou.

- Não sabe?!
Adam olhe só como você está! Suas mãos estão roxas... Olhe essas marcas de sangue tingindo a lã!
Pobre Rebecca! - Élis deu uma risada inesperada - Ela é tão assustável...
...
-Vamos criança... Eu vou te ajudar a entrar, e não pense que escapou dessa... Depois que eu voltar da Enfermaria vamos ter uma conversa... Mas Zavebe não pode saber disso, ele nos atormentaria por um bom tempo, e ninguém quer isto não é?! -

Assenti com a cabeça e o rosto em chamas.

- Você já teve uma boa lição por hora. Me acompanhe.

O dia estava tão iluminado. Era como estar olhando diretamente para o sol... Me senti aliviado... Imaginei que seria pior...

- Imagine só criança, você deu o maior susto em todos... Mas não vá ficar se vangloriado por causa disso, ou te levarei a Zavebe... - disse ela sorrindo.

- Não, não... Foi sem querer.

Só depois eu descobri que a Irmã Rebecca era constante alvo de susto das traquinagens das crianças.
...

Já sentado na cama da sala de recuperação, com roupas limpas e secas, Élis me deixou aos cuidados de duas Freiras... Judith e Genevieve.
Elas trouxeram alguns frascos com ervas para cuidar de meus ferimentos. O cheiro era nauseante e como ardiam...

- Fique ai quieto por um tempo. - disseram-me.

Resolvi dormir um pouco antes que fosse derrubado por aquele odor forte qe agora exalava aquela mistura de ervas...
Acordei com a Irmã Genevieve me chamando...

- Vamos acorrde Adam... Élis querr vê-lo.

Eu já me sentia bem melhor. Aquela gororoba realmente funcionou.
Genevieve falava com um sotaque bastante carregado... E como falava... Ela fazia uma pergunta mas logo se encarregava de responder a mesma... Emendando um assunto em outro...
Era até divertido...
À frente da porta de Élis, antes de entrar, ela me disse:

- Você é muuito simpatic, foi bom falarr com você... E obrrigada pelo susto na Rebecca. É o assunto do dia entrre nós... Já demos bastant garrgalhada, mas isso fic entrre nós.

- É... bem... De nada, eu acho.

- Entrre e até outra horra meu jovem...

Élis estava cuidando de um Cactos que estava posto em uma janela aberta, bem iluminada.

- Por mais que eu regue, adube... ele nunca florece... Já o tenho a 25 anos, e só o vi florido quano minha mãe ainda era viva.

- Talvez ele sinta falta dela. Deveria cuidar menos dele com coisas físicas e conversar mais com ele. - respondi automaticamente

Ela me olhou por cima do ombro. Eu Nem sabia de onde tinha tirado aquela observção...

- Bem, meu pequeno Herbológo,

- Certo! Pode dizer.'ela deve ter mudado de idéia e vai me castigar', pensei.

- Vá ao celeiro. Ébert o levará até o Pastor da ovelhas, que já deve estar no campo. Vocês vão ajudá-lo, ou não atrapalhá-lo ao menos... Entendeu?

- Sim. Certo... Ajudar o Pastor de ovelhas.

- Ótimo, agora vá... O caminho você já sabe bem.

Antes de sair completamente da sala pude ouvi-la dizer algo voltada para a janela:

- Eu também sinto falta dela... Ela era muito gentil...

...

- Adam, aqui... Venha... - disse Ébert - Gustavo também vai conosco, só temos que encontrá-lo... Acho que est no celeiro procurando algo.

- Isso! Achei... Era exatamente isso que eu precisava...- falava sozinho um garoto alto e magricela, ao fundo do celeiro.

- Vamos logo Gustavo. Adam vai com a gente hoje...

- Oi... Eu sou o Gustavo e este é Ébert! - disse todo afoito vindo em nossa direção - Seremos seus Mestres hoje.

- Não exagera Gustavo.

-Não sou exagerado, sou um visionário Ébert, gravem meu nome 'O GRAND GUSTAV'!
E fez uma pose pomposa que rendeu a nós três uma risada súbita!

Eles iam à frente e eu poucos passos atrás meio distraído com o ambiente. Gustavo a falar euforicamete sobre um ingrediente para "conjurar" algo... Perto do cogumelo que deveria aflorar hoje... Não dei importância e continuei a divagar sobre como aquele lugar era bonito... Mas tinha uma tristeza velada nas ruínas que ladeavam o caminho...
'Como seria este lugar em outros tempos???' - pensei...

Ao longe avistavamos O pastor e um enorme cão que corrigia cada ovelha errante do rebanho...

- Bersek!!! - fiiiiiu - chamou ele o cão...
- Corram! - gritou Gustavo e eu não entendi.

Por que??????? - Perguntei enquanto corriam Gustavo e Ébert passavam por mim.

Fiquei ali parado enquanto eles correram...

- Vocês estão atrasados... - gritou o Pastor - Pega eles Bersek! - completou.

Eu só tive tempo de fechar os olhos e... latido alto e uma passada de pata no chão...
Eu não acreditei!!!
Abrindo forçosamente os olhos... ELE estava ali... O monstro canino estava na minha frente, parecia meio inclinado em suas patas dianteiras... parecia uma reverência.

- Me chamo Ariam. Este cão e estas ovelhas são meu 'filhos'. Vejo que meu monstrinho gostou de você... - disse o Pastor se aproximando de mim - Isso é no mínimo curioso... - completou ele sorrindo.

- Vo... vo-cê queria que ele me-me atacasse?!!!


- Claro que não. Ele só atacaria um lobo... E só porque ele é leal à mim e sabe que desejo que proteja as ovelhas. Seus dois jovens amigos correram porque Bersek é muito entusiasmado e adora pular neles... e babar neles... - Arian sorria me olhando de soslaio.-
É curioso ele ter respeitado você...

"Fenris" ecoou em minha mente enquanto ele comentav sobre achar curioso... e eu sussurrei o nome ao pensar alto demais...
O Pastor sorriu e Bersek saiu devagar e pôs a correr para suas ovelhas que já se espalhavam...

- Vá se encontrar com aqueles dois e diga à eles que não escaparam da fúria do poderoso Bersek. E que não se atrasem mais... - fez uma reverência sutil e pegou seu cajado que estava recostado em uma rocha.

...E tragam nosso almoço. Hoje não pesquei peixe algum, nem coelho algum capturamos... - disse sorrindo antes de sair -Talvez um pequeno lobo com você os tenha espantado.

Eu não entendi nada...
Teria algo a ver com aquele nome que murmurei?
...

Os dois estavam a desenhar algo no chão, sob uma frondosa árvore...

- O que houve com você e Bersek? - disse Gustavo enquanto orientava Ébert a desenhar algo.
- Não sei... Deve ter ficado tonto com o meu odor de ervas...

- Não queríamos comentar o fedor... - disse Ébert - achavamos que era o perfume da Irmã Genevieve... - Gargalharam.

Sentei e recostei na árvore, me sentindo muito bem ali... Parecia compartilhar da harmonia daquela árvore gigantesca que, embora tivesse perdido sua folhagem no Outono, tinha uma força incrível... Lembrei de algo que minha mãe dissera uma vez:
"Sempre que precisar de energia por estar muito canssado, os espíritos das árvores vão lhe ajudar... Basta recostar respeitosamente em uma..."
A lembrança foi interrompida pela curiosa cena dos dois ali diante de uns rabiscos que fizeram com um graveto no chão, e Ébert dizendo que tinha algo errado e o espírito elemental jamais viria assim...

- Ei Adam, confira se Ariam está longe! - pediu Ébert.


- Acho que está sim... Não o vejo daqui.

- Tudo certo... pronto... Vamos 'Gu', me dê a conjuração antes que este cogumelo murche...

Havia no chão, aos pés da árvore, um cogumelo bem vermelho com bolinhas brancas, um círculo e um triângulo a volta do cogumelo, e vários símbolos a circundá-lo...
Eu olhava curiosamente aquele estranha 'cerimônia'.
Gustavo estendendo a mão, entregou um papel com símbolos e coisas escritas a Ébert.
Ébert começou a recitar algumas palavras e apontar com um pequeno galho, para o centro daquele círculo.



- Caput mortum, imperet tibi dominus per vivum et devotum serpentem!
Cherub, imperet tibi dominus per Adam Jotchavah!
Aquila errans, imperet tibi dominus per alas tauri.
Serpens, imperet tibi dominus tetragramaton per Angelum et leonem.
Michael, Gabriel, Rafael, Anael, fluat udor per spiritum Elohim.
Maneat terra per Adam Jotchavah. Fiat firmamentum per iahuvehu-Sabaoth.
Fiat judicium per ignem in virtute Michael.
Anjo dos olhos mortos, obedece ou dissipa-te com esta água santa.
Touro alado, trabalha, ou volta à terra, se não queres que te fira com esta espada.
Águia encadeada, obedece ante este signo , o retira-te ante este sopro.
Serpente móvel arrasta-te a meus pés ou serás atormentada pelo fogo sagrado e evapora-te com os perfumes que eu queimo.
Que a água volte à água, que o fogo arda, que o ar circule, que a terra caia sobre a terra, pela virtude do pentagrama que é a estrela matutina e em nome do tetragrama que está escrito no centro da cruz de luz. Amén, Amén, Amén…
apareça, em nome de Ghob espirito elemental que é e que mantem este cogumelo sagrado!!! - ordenou Ébert após uma atuação teatral bem dramatica eu diria.

Entreolharam-se num ar de expectativa...

- Estes símbolos estão desenhados errado! - disse eu ao pensar alto

Ébert meio desconsertado prosseguiu repetindo tudo novamente, e seja lá o que estavam esperando acontecer, não aconteceu... desistiram.

- Nunca mais deixarei você fazer as pesquisas Gus-Ta-Vo...

Discutiam sobre o que cada um teria feito errado.


De repente a terra a volta do cogumelo tremeu e começou a romper...

- Vejam!- dissemos ao mesmo tempo...

- Zeus!!! - disse Gustavo parecendo buscar uma fuga - Algum Ghoul deve estar subindo do Mundo dos Mortos... Meu Zeus! Ébert você deve ter feito algo errado!

- Não seja tolo seu idiota... O que... que... é... isso????

Saltamos pra trás assustados com o movimento da terra que aumentava mais e mais...

- Ghoul! Socorro!- gritava Gustavo...

- Corram! - gritou Ébert.

Antes que pudesse-mos correr de fato, uma pequenina 'fera' rechonchuda arrebitou seu focinho soltando um espirro esganiçado se pondo a correr...

- Marmota?! - falou Gustavo aparvalhado - Você conjurou uma Marmota!

- Uma Marmota!!!

- Desse jeito nunca faremos isso direito... Anda, vamos pegá-la pra mostrar as meninas...
Anda Gustavo, vamos, seu grande idiota... - disse Ébert puxando o braço de Gustavo...

Eu os observei correr atrás da pobre Marmota.
Estranhamente eu me senti impelido a pegar o graveto no chão e desenhei no círculo o que achei que ali faltava... E observei por alguns instantes...

- Grande bobagem!... O que eu estou fazendo?!

Joguei o graveto no chão e fui seguir os 'caçadores de Marmota'.
Uns passos a frente, ouvi um graveto se partir... ao olhar para trás...

- O que é... aquilo?

Uma pequenina cabeça, com um tufo de cabelo avermelhado no topo, estava a me olhar por detrás do cogumelo...
Esfreguei os olhos e olhei novamente mas não o vi mais...