Não tinha real noção de minhas feridas. Dormi por quatro dias.
Acordei. Levantei-me e fui à janela. O tempo estava fechado, núvens avermelhadas e o vento começava a soprar anunciando uma tempestade.
A enfermeira veio me ver e contou o quanto eu havia hibernado. Me trouxe roupas "novas" e eu a acompanhei pelo corredor de pedra da ala da enfermaria, através do caminho notei duas enormes portas: uma fechada e a outra aberta; Pareciam entradas de uma biblioteca...
Veio como um relâmpago a lembraça de estar lendo um livro... Símbolos... Outras línguas... Balancei a cabeça e prossegui.
Chegamos ao refeitório... Já era hora do almoço. Ali umas trezentas crianças, e alguns bebês eram cuidados pelas Freiras.
Me senti uma aberração. Com a cabeça enfaixada e ataduras nas pernas completavam minha roupagem, e claro, logo assim que adentrei o refeitório virei alvo dos olhares e assuntos de conversas sorrateiras. Constrangimento foi pouco, afinal, eu não lembrava do meu passado e agora virei a atração do circo.
Com a fome que apertava fui obrigado a comer ali... Não tinha escolha, ao menos encontrei uma mesa distante do público que me assitia...
Devorei minha sopa e o pedaço de pão.
Depois do almoço, todos saiam para a área lateral... Uma enorme varanda de pedras... Parecia algo muito mais antigo que a outra área dali... O lago circundava todo o Orfanato; Caminhei para a parte de trás, havia lá um jardim ramado com muitas árvores, pequenos barquinhos ancorados ali, provavelmente para ir até a outra margem onde haviam outros complexos - possivelemnte do Orfanato também.
Nem tudo ali era estranho... A ponte da entrada parecia familiar.
Notei que quatro pessoas estavam a me olhar... Despistei e encontrei uma bicicleta. Perfeito... Agora posso ir conferir aqueles sonhos que tive.
A tempestade chegou e com ela saí voando por entre as pedras... Quase cai da ponte.
Minhas pernas ardiam, as ataduras já manchadas pelo sangue... Não iria desistir, precisava entender tudo aquilo.
A casa não chegava mais...
A chuva pareciam que iria afogar a todos. A respiração já não trazia ar para os pulmões e sim água.
Após quase 2 horas pedalando avistei ao longe ruínas, não me contive e saltei da bicicleta ainda em movimento. Cheguei diante das ruínas de uma grande casa... Cai de joelhos... As lágrimas se misturavam a chuva; Meu sangue descia pelo rosto... Meu ferimento acordara.
Minhas mãos sobre as cinzas.
O céu parecia se compadecer com minha dor.
Uma forte dor na cabeça e as lembranças daquele noite brotaram vorazmente.
Meu pai estava no porão e minha mãe lendo na biblioteca... Eu estava escrevendo algo... Um conto sobre seres da natureza...
Quando ouvi um barulho de janelas estilhaçando. Desci aos pulos as escadas e me deparei com fogo pela casa... Muita fumaça... Ouvi minha mãe gritar... Entrei pela ante-sala da biblioteca... Sangue pelas paredes.
Meu pai ao chão com minha mãe, segunrando um punhal. O punhal cravado em seu peito... O rosto dele era puro ódio.
Ele olhou pra mim com um olhar obscuro e fez um gesto com a mão, eu fui atirado do outro lado da casa. Pude ver o teto caindo sobre eles.
...
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